Dia d@s Historiador@s: nosso manifesto

Hoje, dia 19 de agosto deste difícil ano de 2019, comemoramos mais 1 dia d@s historiador@s. Data especial a ser comemorada, celebrada e também contemplada em suas dificuldades, já que agora transitamos inevitavelmente por ambientes hostis. Mas certamente é a necessidade de se combater a História que comprova sua importância. Seja a concreta ou abstrata. O visível e o invisível.

É com intuito de celebrar esta data e a importância que depositamos neste projeto que contamos aqui um pouco mais do nosso processo- que carinhosamente apelidamos de “do caos à síntese” – pra quem nos lê.

Pois foi mais ou menos assim:

perante a percepção de que atualmente coexistem uma significativa intolerância contra o sexo e as sexualidades com uma oposta visão progressista sobre as liberdades sexuais, nossa primeira e grande problematização que originou este projeto foi: será o passado sempre mais conservador que o presente? O que puxou essa reflexão certamente foram as questões de gênero – sobretudo, de violência de gênero- mas também questões mais gerais concernentes ao sexo em si: pois parece que esse espectro da intolerância generalizou os corpos como sexuais e obscenos, já que o sexo, nessa concepção, é quase sempre algo degradante. Por isso, aliás, nos aproveitamos tanto do termo sexualidade – que traz consigo um campo conceitual- quanto do termo sexo, que é polissêmico e permite considerar várias dimensões humanas, das biológicas às culturais.

A partir dessa problematização inicial nós adentramos o campo ao qual pertencemos – e no qual nos formamos juntas- que é o campo generoso da História.

Digo generoso pois nós nos formamos no início deste século, quando já estavam consolidados grandes movimentos teóricos no campo da História que a ampliaram para além de suas fronteiras iniciais mais políticas e factuais.

Neste sentido, nós nos formamos no Departamento de História da USP já sob influência daquele longo movimento que ficou conhecido como Escola dos Annales.

A escola dos Annales também tem sua própria história, mas propunha inicialmente que esse campo deveria ser mais analítico, mais abrangente nos seus objetos, mais ampliado nas percepções sociais de modo que considerasse, por exemplo, o protagonismo das camadas subalternas, que os documentos eram o que dissesse respeito às produções humanas em geral e não apenas aos registros políticos oficiais. Enfim, as propostas teóricas dos Annales acabaram gerando uma série de estudos preciosos que ampliaram a própria noção do que é História e mostraram que, apesar das grandes estruturas econômicas, culturas e políticas, há uma parte da vida humana que não as obedece e não acontece em perfeita conformidade com elas. Neste sentido, o tema da sexualidade se encaixa perfeitamente.

No entanto, apesar dessa ampliação da subjetividade histórica, o tema da sexualidade ainda é incipiente.

Se nos permitirmos aqui aplicar um pouco da psicanálise, talvez esta aparente negligência pode ser atribuída às nossas próprias resistências ao lidar com questões que fatalmente são tão íntimas e, portanto, às vezes incômodas. Mas cremos que essa premissa é possível se pensarmos que alguns documentos que tratam de práticas sexuais foram escondidos por quem os encontrou, sobretudo com o advento da arqueologia que se deu sobretudo no final do século XIX e início do século XX.

Documentos que eram expostos – como os desenhos retratando diversas posições sexuais nas pirâmides do Egito, ou os vasos decorativos gregos ilustrados com cenas de sexo anal- com um aparente naturalidade que posteriormente se perdeu.

Compreendemos que essas resistências e o grau de tolerância e honestidade perante o sexo varia de acordo com os espaços e tempos e, para complicar, com desejos radicalmente singulares. Assim como compreendemos que essas movimentações estão sim ligadas à movimentações mais gerais e globais, como as mudanças socioeconômicas que vieram com a colonização da América, da África e do Oriente. Portanto, um movimento entre a macro e a microhistoria – em um sentido indiciário proposto por Ginzburg- se faz permanentemente necessário.

É isso que faz dessa temática algo tão desafiador e precioso para tanto nos compreendermos – de modo a inserir a sexualidade dentro de uma Ética- quanto para que compreendamos melhor o outro, pelo exercício de alteridade e honestidade que a empreitada exige.

Há, ainda, o aspecto psicopedagógico que torna o tema mais urgente: afinal, a Educação Sexual, tão gravemente negligenciada no Brasil, pode se beneficiar e encontrar abrigo seguro na História.

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