[resenha] Prostituição à brasileira: cinco histórias

Identificadas na Antiguidade oriental e ocidental e na Idade Média como ilhas de experiências isoladas, a prostituição ganhou feições universais quando se estabeleceram as rotas do mundo moderno, integradas gradativamente pelo estabelecimento do sistema colonial. Diga-se, aliás, que o uso do corpo como fator capitalista de colonização também teve início sob essas condições. A ampliação do mundo pela perspectiva europeia demandava mudanças radicais no comportamento humano, e então, como nunca, o uso do sexo se impôs como alternativa para a formulação de novo moldes familiares e de variações morais. A prostituição ganhava novos mapas e se inscrevia como prática marginal, em oposição à formação das famílias e ao ordenamento de classe social. Não faltaram preceitos religiosos que por leituras bíblicas definiam prostituição como pecado.” (MEIHY, pág.11)

Como compreendemos, hoje, a prostituição?

A pergunta pode, inicialmente, causar estranhamento e mesmo certo incômodo. Afinal, se é certo que sabemos da existência desta prática, não podemos dizer o mesmo acerca de sua compreensão e aceitação social.

A facilidade com a qual afirmamos que “a prostituição é a profissão mais antiga da humanidade” é oposta à dificuldade em trazer à tona este tema tão delicado, permeado por tabus e resistências.

Pois este é um tema que requer muito além da curiosidade: demanda respeito, sensibilidade e, sobretudo, coragem. Felizmente, nas últimas décadas a prostituição tem sido cada vez mais observada e estudada. Sobretudo, por pesquisadorxs que se debruçam sobre as questões de gênero e tentam desvendar os dilemas deste universo, dando visibilidade para as estatísticas alarmantes do mercado do sexo, bem como para seus aspectos éticos e filosóficos.

Trata-se, certamente, de uma tarefa complexa e plena de labirintos teóricos que podem, de modo contraproducente, surtir o efeito oposto ao desejado: afinal, se trabalhadoras e trabalhadores do sexo podem sim serem representantes de um sistema socioeconômico excludente e impeditivo de outras possibilidades, é certo que corremos o risco de compreender tal contingente como uma nuvem de pessoas vulneráveis e sem rosto definido, condensando em apenas uma categoria de análise algo que é diverso demais e transborda limites teóricos pré-estabelecidos.

Estes importantes questionamentos encontram respostas nesta obra de José Carlos Sebe Bom Meihy, professor titular aposentado do Departamento de História da USP, coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO-USP) e um dos principais expoentes da moderna história oral.

José Carlos Sebe (FFLCH- USP)

Pautado pela premissa de que a história oral no Brasil precisa fazer aquilo que não é ou tem sido feito em outros espaços, Meihy foi buscar o que os dados não revelam e o que as notícias, às vezes alimentadas pelo imediatismo que lhes convém, não mostram.

Para chegar aos resultados de Prostituição à Brasileira, Meihy precisou de tempo , dedicação e de ousadia para ir além da Academia. O livro “Prostituição à Brasileira” foi concebido durante longo percurso e seus resultados demandaram a depuração necessária para, além da feitura de entrevistas e seu trabalho textual posterior, corresponder a aspectos éticos de verificação dos textos finais.

Mas, afinal, do que fala este livro?

Histórias de vida. Histórias de vida de prostitutas. Histórias de vida de prostitutas e prostitutos que vivem fora do Brasil. Experiências em comum e singularidades comumente invisibilizadas em trabalhos deste tipo. Mulheres e homens que se mostram autores conscientes de suas trajetórias, que se apropriaram do adjetivo “puta” e o ressignificaram em suas vidas.

O formato adotado por Meihy garante a sensação de caminhar em solo seguro, transitando com maestria entre o panorama histórico desenvolvido no primeiro capítulo intitulado “O Arco da História” e as cinco histórias escolhidas após uma saga que envolveu a realização de mais de 70 entrevistas.

No começo eu não tinha muito o que escolher. O que aparecia era lucro e dei muita sorte: não apanhei, não me maltrataram, não fizeram as coisas que muitas contam. Comecei a fazer dois ou três programas por dia. Logo, os clientes me ensinaram a usar camisinha, passar pomada. Sei lá por quê, começou a aparecer muito velho querendo programa. Na maioria das vezes, era só bolinação. Eu deixava, né? Sabe, fui ficando especialista em velhos… Até hoje sou procurada por coroas. Sou a rainha dos gagás, pode perguntar por aí… Algumas vezes aparecia um mais jeitosinho e então eu caprichava no chamego. Foi logo no começo que soube que poderia, além do dinheiro, ter prazer na coisa. Puta de verdade aprende a tirar o melhor da profissão. Garanto: gozo de puta, gozo sincero mesmo, é muito bom… Tem muita coisa ruim na vida, mas também quando aparece coisa boa! … (História 1, pág. 53-54)

Ler Prostituição à Brasileira é experiência que faz pensar e nos leva da fácil rejeição à insuspeitável excitação. Como um bom livro de literatura, nos eleva ao adverso. Mas como um excelente livro de história oral, traz análises e ponderações que anunciam novas formas de fazer e contar as histórias que compõem as tramas da História.

Título: Prostituição à brasileira: cinco histórias

autor: José Carlos Sebe B. Meihy.

São Paulo: editora Contexto, 2015

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